A poesia e o FaceBook

A poesia deveria ser lida em recolhimento, em introspecção, jamais deveria ser “recitada”, repetida em mesas de bar, em conversas informais com amigos.
A poesia pode ser interpretada em recitais, em leituras públicas, mas o ouvinte é voluntário, ele vai até lá para ouvir, caso contrário, embaça a beleza, impede o entendimento mais profundo e, mais do que tudo, chega em hora indevida, intempestiva, não é hora adequada para ela, está sendo imposta, por favor, pare com isso…
Eu fico imaginando um grupo de amigos, bebendo um chopp, jogando conversa fora na beira da praia e um deles, olhando distraidamente para o céu, percebe algo e diz: “Se prepare que está entrando um Sudoeste.”
Se a conversa fosse no Facebook, a resposta poderia ser algo como:
AMIGO 1: “A análise do céu através das nuvens é um dos bons indícios para se prever o mau tempo. Tudo começa com os “rabos-de-galo”: as nuvens cirros, que se parecem com as penas de um rabo de galo riscando o azul do céu. Elas são muito comuns e nem sempre indicam que a situação vai piorar. Porém, se depois dos “rabos-de-galo” aparecerem os “carneirinhos”, ou “costelas-de-vaca”, a probabilidade começa a aumentar. Se na seqüência o céu começa a escurecer para o sul ou sudoeste, com nuvens baixas, conhecidas como nimboestratos, é quase certo que a frente está entrando. Prepare-se!”
AMIGO 2: “Os furiosos ventos repousavam
Polas covas escuras peregrinas;
Porém da armada a gente vigiava,
Como por longo tempo costumava.”
E por aí a fora…
Já pensou como seria, conversar com os amigos no Facebook, como se não fossemos personagens literários? Como se fossemos capazes de articular, emitir, redigir, digitar os próprios pensamentos, sem repetir aleatoriamente o “pensamento” de outros?
Por outro lado, poesia, numa hora dessas, estraga qualquer chopp…
P.S.: Gabo foi para o Brasil, assistir a Copa do Mundo e chamou Cecília para substituí-lo.

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Published in: on quarta-feira, 11 junho 2014 at 9:00 pm  Deixe um comentário  
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